Epístola neo-ortográfica
"Cuidado, meu bem. Há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens"...
É verdade que estou desencantada com (in)certa nova invenção. Só que vou ficar nesta cidade, pois vejo vir vindo no vento cheiro da nova estação. Como sei de tudo isso? Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração! Salve, Belchior!
Mas, não quero vos falar, somente, das coisas que aprendi nos discos ou nos livros, sobretudo, nos livros. Quero vos contar como eu vivi... e tudo que aconteceu comigo.
Meus caros, enquanto o respeito às diferenças urge, despontam ao raiar deste novo ano, por toda parte, massificações - ao pé da letra!
Ao ser humano, em paralelo, dotado de inesgotável criatividade, resta, porém, em contraposição às adversidades (e nãos à diversidade) sobrepor-se ao... próprio ser humano.
Pergunto-me e a vós nesta inexorável ocasião divisora de águas que, curiosamente, visa aproximá-las: o que nos distingue, desde que o mundo é mundo, e continuará a fazê-lo com cada homem ou mulher entre seus pares, tornando-nos ímpares entre os demais?
Longe de obter resposta, inquiro-me - e a vós ainda - se, quem sabe uma inesgotável sede de justiça? Tão descomunal sede que se mantém, inconscientemente ou não, provocada por nós mesmos toda vez que damos de beber ao abominável orgulho ao invés de saciar as emoções comezinhas, afogando ideais em areia.
Toda vez, igualmente, que assistimos com placidez secarem os sentidos que nos provocam à partilha, ressequimos; da mesma forma como sempre que se nos evaporam antes de vir à boca doces palavras suculentas, abortadas para que venham à luz outras - de opróbrio -, estas ejaculadas de instintos disfarçados por máscaras enxutas, murchamos.
Lembremo-nos do que nos anunciou há pouco a sonorosa profecia de um nosso contemporâneo: "sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar", e mais: "na correnteza do amor quem vai saber se guiar?".
Não nos desviemos, portanto, da preocupação geral que há nestes dias incertos em que a dúvida virou bússola...
O que, enfim, faz das gentes criaturas semelhantes? Credo? Cor? Classe? Sexo? Temperamento? Idioma? Acordo?
O que, por fim, trará unicidade? Ora, isto é, agora, um detalhe. Curvemo-nos ao deus da hora - a língua!
De hoje em diante, pois, não vos curvareis à nostálgica melodia de antigos ídolos. Não vos dobrareis, circunflexos, diante de regras que trouxestes até aqui, invariavelmente impassivos ao sofrimento dos iguais a vós. Não andareis de braços, hifenizados a quem não crê no que está acima deles, nem vos rendereis, portanto, à incredulidade, assim como fazem os que não tendo jamais apreendido as regras que às novas antecederam, neste momento, abandonam a palavra, desesperados. Ademais, não há motivo sequer para ficardes intranquilos! Isto porque, embora tremulantes em vista, isto é, ao perder de vista o trema, na essência serão os mesmos.
Bom? Nem tanto. Menos mal, por assim dizer - e escrever.
Não percamos a fé. O sonho não acabou. Isto posto, a despeito de alguma perda de identidade ortográfica, sigamos remando contra a maré, tendo por farol a possibilidade de continuar refletindo a propósito de antigas ideias, como por exemplo, esta voz na qual prossegue a profecia que se cumpre: "minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos"; "nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não".
Mas, não serei uma vitrola velha (Não vos deixeis tentar, nem desvieis a atenção, pois, se a expressão de há pouco é um pleonasmo, não vem ao caso, não a este caso) a vos falar só de coisas que aprendi nos discos - e livros!
Além disso, "para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua é que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz".
Ainda assim, por nada, caríssimos, desanimemos. Perseveremos à semelhança das "ideias", as quais, apesar de terem sido, no que as diferenciava na forma, maculadas, insistem em dizer a que vieram, sem comprometimento da essência.
E, afinal, já foi decretado antes de tudo: o essencial é invisível aos olhos!
Escrito por Valquíria às 09h15
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Tudo no devido lugar
Dia desses, minha filha e eu observávamos uma taturana ziguezagueando pela garagem...
Fatigada da distração, ela me propôs que entrássemos, ao que me mostrei contrariada, dizendo que eu poderia, com tranqüilidade, passar o dia todo naquela tarefa.
- Como poderia? Você precisa fazer o almoço, deixar tudo em ordem, cuidar da gente, essas coisas...
Obviamente sorri, afinal, eu, a adulta, falava do tocante ao meu desejo, enquanto que ela, a criança, pensava nas obrigações. Tudo, pois, no seu devido lugar!
Embora eu estivesse absolutamente fascinada com a visão daqueles longos cabelos voando ao vento leve, igual faz um marujo admirando a embarcação flutuar... Apesar também de eu ficar arrebatada por seu sorriso brilhantemente alinhado por força do aparelho, por sua voz risonha, por estar, enfim, diante desta criatura à qual adjetivo algum alcança... ainda assim, pude, de relance, notar as mangas no quintal da vizinha. E consegui retê-la, ali, comigo por mais um pouco à sombra de meu deleite, e, claro, à sombra concreta (tanto quanto pode ser concreta uma sombra) da majestosa mangueira.
- Filha... Veja como as frutas já começam a amadurecer!
Ela olhou simplesmente. Sem dizer palavra.
- Sabia que elas conversam comigo?
- Quem, mãe?
- Ora, as mangas!
...
- Aqui entre nós, acho isso bem estranho...
- Eu também acho, né, mãe.
- Concordo, filhinha. Afinal, não é da natureza das mangas falar. E essas aí falam.
- Estranho é você ouvir.
- Ué, eu tenho ouvidos.
- Eu também tenho e não escuto nada.
- Isso se explica facilmente: sou eu quem fica ali na varanda, quando está ardendo o sol, quando os sanhaços vêm repousar debaixo do frescor dos galhos, e quando as vespas roçam as frutas. Tenho, portanto, mais oportunidade que você de prosear com elas. Mesmo porque é bem nessa hora que elas tagarelam. Vai ver aprenderam a confiar em mim, sei lá. Como as andorinhas transitam pelo céu, confiando nas pipas, sem saber sequer que os meninos é que as empinam, e que nenhum deles tem carta de motorista, ou permissão pra voar.
Aparentemente, para minha surpresa, ela não pareceu me levar a sério. Tanto é verdade, que retornou à investigação da taturana fofa. Insisti.
- Imagino que agora estejam fazendo a sesta. Reparou como estão quietas?
Quis provocá-la até o limite, por isso, mantive os olhos fixos nas alturas, donde as mangas precipitavam-se. No muro, bastante próximo, um gato amarelo espreguiçava as pernas, e depois as encolhia, espreguiçava e encolhia, espreguiçava...
Contei a ela a respeito de um amigo meu, o Roberto, que é marido da Vera, a bibliotecária, que mora lá perto da casa do Alexandre.
- ... resumindo, filhinha, essa história é ou não é uma maluquice?!
- Ah, tá bom. Ele que é maluco? Só porque conversa com grilos em pensamento é maluco?
- Você não entendeu, amor. Ele não tem grilo na cuca, não. Isso é música do Dudu França; nem é do seu tempo.
- Não foi isso que eu disse. Foi você que disse. Disse que ele conversa com grilos...
- ... e sapos
- e sapos!
- ... e vagalumes...
- Eu entendi! Tudo à noite. Da janela. Em silêncio.
- Isso. Mentalmente.
- Isso qualquer um faz. É uma brincadeira, mãe. Vai dizer que você nunca fez isso quando era pequena...
- Mas ele é adulto, filha. Mais velho que eu, inclusive.
Ela pasmou. E sorriu novamente, porém, desta vez, foi um riso inseguro, e, segurando-se na grade interrompeu por um momento o exercício de subir e descer, a fim de mirar-me melhor.
Eu, por minha vez, neste exercício recorrente de fascinar-me a qualquer gesto seu, não pude deixar de rir quando notei que seu corpinho esguio ficou suspenso no ar, todo curvado: mãos e pés muito próximos, queixo e calcanhares quase juntos.
- Mãe, você só pode estar brincando!
- Não, filha. Você está! Aliás, está brincando de quê? De vírgula? Porque parece uma, aí, toda torta.
- Não é possível, mami. Fala sério. Pra começo de conversa, mangas não falam. Ah, deixa pra lá. Você tá fazendo piada.
- Ai ai ai... que elas não nos ouçam, filha. Imagine, fazer piada da vida dos outros...
Escrito por Valquíria às 11h16
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Mozart, anjos e besouros
Wolfgang Amadeus Mozart dizia que eram os anjos que sopravam as melodias em seus ouvidos. Contudo, contava também que não existiam compositores que ele não houvesse estudado.
Numa compilação da obra do sociólogo alemão Norbert Elias, lê-se que Mozart tinha plena convicção de sua capacidade artística. Entretanto, esta capacidade, bem como sua relação com a própria realidade social, foram sendo moldadas pela, então, vigente, tensão social, dentro da qual o jovem artista estava inserido. Era o poder do patronato nobre delimitando, por assim dizer, a criatividade musical do músico de corte.
Não fosse este de quem falamos um verdadeiro gênio, decerto, não teria sido, a despeito das adversidades, precursor, ao romper as convenções do gênero que àquela época determinavam que os cantores tinham a primazia do discurso musical, ficando a escrita instrumental subserviente às vozes humanas.
Mozart, voluntariosa e corajosamente, quebrou aquilo a que consideravam equilibrado, trazendo à tona o peso da orquestra paralelamente a melodias vocais.
Em vista disso, bem como de outras histórias do universo das artes, há muito questionamento a respeito da misteriosa senhora que atende - quando bem entende - pelo nome de Inspiração.
Perpetuar-se-á esta contenda, à semelhança das magníficas obras do ventre das musas advindas ou, no mínimo, paridas à sombra de sua bênção ou cumplicidade. Pois, afinal, o misticismo, apenas, explicaria a genialidade? Ou, ao contrário, o estudo dos que o antecederam, no caso de Mozart, seria a angelical explicação, ou seja, os compositores, alvo de sua investigação e admiração, estes sim, eram os verdadeiros anjos?
Da minha parte, já que me permitem, penso, cá com meus botões, que, assim como bem e mal, vida e morte, dentre outros, pode-se incluir na já extensa lista de dualismos, este sobre o qual, ora, nos debruçamos: inspiração e teoria.
E por mais que se resista a nominar a fonte, ou localizar donde venham, Ciência e Intuição se mantêm e, por conseguinte, a nós também, vinculados (simbolicamente) a alguma esfera celestial.
É inegável, seguindo tal raciocínio, se o quiserem seguir comigo, que Fonte Inspiradora e Observação Cotidiana andam de mãos dadas até a luz no fim do túnel: a criação.
Afinal, é daí, exatamente desta junção avassaladora de quereres, desta pororoca de signos, que surge um sem número de obras-primas, geradas por humanos quer enlouquecidos, quer absorvidos (e absolvidos) pelas artes, nos mais diversos segmentos.
Tudo isso, porém - caso não esteja a serviço de outrem - não cumpre, por assim dizer, o todo de seu destino. Porque a catarse (que passou, por ocasião da ruína da literatura clássica, sobretudo da tragédia como gênero puro e normativo, a outros gêneros poéticos), a função purgativa, não tem seu fim em si mesma, mas no efeito que dela pode advir.
Noto por experiência própria... Toda vez que escrevo a meu respeito ou sobre o que penso, o que anseio, ou abomino, enfim, em poemas por mim lapidados, parto desta que sou, buscando, no mais das vezes, embora instintivamente, ir para muito além deste ser (ou não ser). Assim, assemelhar-me, respeitar os demais, é pecado e já confissão!
Todavia, quem sabe se por um mínimo altruísmo enraigado nestas reentrâncias, se por desvio imprevisto, se por o que mais possa ser, tentando alcançar-me, vislumbro, a certa altura, sempre, a possibilidade de rasgar este invólucro, saltar deste ostracismo, para, ao fazê-lo, libertar, comigo, mais alguém e mais alguns...
É bem possível que isto sobre o que lhes falo, caracterize simplesmente um instinto menos nobre, o qual se poderá denominar "de sobrevivência". Até daí, contudo, graças a Deus, desta submersão galopante indigesta, pululam estrofes como rãs.
Conforme testemunho de outras pessoas - que se distinguem pela alma poética - como é o caso da Rose, mãe do Léo e do Dudu, saltam linhas, qual besouros de flores, usando para contar-lhes, as palavras que ela mesma me disse.
Loucura, diriam algumas pessoas. Felicidade, costumo chamá-la.
Escrito por Valquíria às 08h32
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Memória e identidade nacionais (parceria com Renata Iacovino)
"Salve, lindo pendão da esperança,/ Salve, símbolo augusto da paz!/ Tua nobre presença à lembrança/ A grandeza da Pátria nos traz"; "Recebe o afeto que se encerra/ Em nosso peito juvenil,/ Querido símbolo da terra,/ Da amada terra do Brasil!"...
Em recente visita a uma escola municipal, em virtude de evento do qual participamos, pudemos, após alguns anos, rememorar o Hino à Bandeira Nacional, tendo em vista ser aquela data, o Dia da Bandeira - 19 de novembro.
Rapidamente o refrão nos veio à mente e à boca, bem como a primeira estrofe. As demais estrofes, embora não decoradas na íntegra, pareciam vir à luz, a partir de uma recordação de ar infantil, misturada ao hastear da Bandeira, e conforme ouvíamos os infantes da vez, cada verso brotava, novamente, de nossas bocas.
Tal recordação só foi possível porque em algum momento (ou em muitos) nos foi dada a oportunidade de entoar referido Hino, bem como os demais.
Não se trata de fazer uma apologia à matéria Educação Moral e Cívica e à sua função à época, a serviço do resquício do regime ditatorial. Aliás, aparte o conteúdo ufanista de nossos hinos e as considerações referentes aos contextos histórico e político em que foram compostos, existe uma construção lingüística e poética riquíssima nessas letras.
Não é tarefa fácil, sabe-se, fazer com que os pequeninos conheçam e apreciem o próprio Hino Nacional Brasileiro, sem um estudo pormenorizado dos diversos recursos nele contidos, entre os quais, o vocabulário rebuscado e as inversões. Nem isto se faz num piscar de olhos.
É determinante que, para tanto, as crianças sejam envolvidas num contexto mais amplo, em que se esmiuçará a música e a poesia ali contidas. Daí, sim, naturalmente, virá o entendimento e, deste, por sua vez, o próprio gosto em cantá-lo com o coração, não somente com o instinto, ou por mera obediência.
Ademais, é fundamental, que isto não se perca na continuidade do período escolar, adiante dos ensinos infantil e fundamental.
Ora, a música de Francisco Manuel da Silva escrita sobre o poema de Joaquim Osório Duque Estrada é um símbolo nacional! E símbolos designam elementos representativos de realidades invisíveis, e são essenciais no processo de comunicação, este, fundamental para a vida em sociedade. No caso em questão, poema e acordes, quando concebidos, visavam traduzir harmonicamente, isto é, tornar inteligível, algo grandioso, a saber, o amor pátrio.
No entanto, como se vem constatando, atualmente, em estádios de futebol, por exemplo, dá-se desrespeito tamanho ao Hino e, por conseguine, à pátria, a ponto de a maioria do público presente sequer perceber que ele está sendo executado.
Se, em conformidade com alguns registros, considerarmos que, desde sua primeira execução, em 13 de abril de 1831, ele é a composição mais executada em solenidades especiais, parece-nos que tudo está em ordem (e progresso). Entretanto, tal assunto não requereria debates, caso sua importância não fosse tão grande, haja vista, por sinal, a grandeza não estar invariavelmente atrelada à quantidade, mas, ao contrário, à qualidade. E, caso tal importância não estivesse, por estes momentos, relegada, ainda, à sombra de certo descaso.
Voltando ao ponto que nos trouxe até aqui, ouvir, recentemente, outro hino, o dedicado à nossa bandeira, nos trouxe à mente Olavo Bilac, o autor da letra. E... por que o estudo dos hinos - imaginamos - não poderia servir como uma proposta, também, de se estudar os poetas nacionais?
E, partindo disso, os de nossa cidade? Suas histórias, cujas raízes, decerto, nalgum ponto cruzar-se-ão com as nossas próprias; permitindo emergirem do total anonimato fatos relevantes relativos a nomes de ruas, bairros, praças, circunstâncias e curiosidades que concorreram para a construção de nosso torrão, Jundiaí... Passagens outras, talvez, elementares para a edificação da cidadania e do civismo, que mudariam o rumo dessa história...
Escrito por Valquíria às 16h49
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Fazer a diferença
Há muito, partindo da premissa de que poetas eram meros imitadores da realidade, Platão excluiu a poesia por julgá-la inútil, e, portanto, um obstáculo à evolução dos princípios éticos estabelecidos a fim de formar os cidadãos.
Tanto tempo após, e embora a questão da utilidade tenha conotação diversa da que, então, vigorava, artistas, sobretudo poetas, ainda sobrevivem estigmatizados sob a alcunha de alienados e inúteis!
Movido inclusive por motivos outros, que extrapolam esta presente conversa, Platão não enxergou - sob a ótica da sensibilidade - adiante da imitação, a verossimilhança. Um seu pupilo, contudo, Aristóteles, o faria, pois, se o platonismo reverencia o mundo das idéias, onde realidade física, material, sensível e concreta não alcançam o ideal de perfeição que apenas a representação mental, abstrata propicia... para Aristóteles, a lógica e o bom senso dão conta da realidade captada por nossos sentidos (visão, audição, paladar, olfato, tato).
Assim, o discípulo inseriu, com reflexões próprias sobre o ensinamento do mestre, um importante capítulo à história do pensamento.
Afora diferenças conceituais, seja advindas de amostras da paradoxalidade da vida ou da inexplicabilidade da existência, seja por avanços científicos, tecnológicos, ou simplesmente porque a Filosofia é deveras instigante a ponto de todos quererem, vez por outra, filosofar, porque não nos seria permitido, também, fazê-lo? Bem ou mal, haja vista, indubitavelmente, perseguirmos, filósofo e poeta, um - à verdade pura -, o outro - o verossímil.
É notório que a poesia, não raro, nos leva a divagar pelos entornos do exercício reflexivo solitário. Todavia, esta suposta solidão, ao contrário do que se costuma prejulgar, não nos relega ou aliena. Não, pelo menos, aos que têm firmeza de espírito e compromisso com a verdade, se não a absoluta, aquela que nos assemelha aos demais, e distingue entre todos, ao mesmo tempo.
É impossível reduzir tudo à razão, mesmo à custa de todo empreendimento humano, tampouco é útil tentar medir a utilidade de coisas ou pessoas, em vista de se atingir ideais. A chave está no bom senso. E até além dele (daí não ser tarefa fácil), já que talvez jamais se chegue a um consenso acerca do bom senso.
Imitação, verossimilhança, ou verdade, um varal poético foi montado, no primeiro dia deste dezembro, na praça central, aqui, em Jundiaí, dentro de um evento que, por sua vez, vem ocorrendo já há onze anos, registrando o Dia Mundial de Luta Contra AIDS.
Foram por mim convidados todos (isto, trocando em miúdos representa, em média, setenta trabalhos) que, tradicionalmente, expõem noutros varais, com temáticas distintas, no intuito de se juntarem, em prol da Arte e da conscientização que dizem, sim, e muito, respeito a todos!
Não entremos, indiscretamente, no mérito das razões (embora nem tudo, como já observamos, se reduza à razão) de cada um. Fato é que, não obstante minha felicidade em decorrência do resultado - porque sucesso se dimensiona pela qualidade - amparada em meus conceitos de relevância, julgo procedente agradecer de forma pública a Abilio Pacheco, Akiko Koike, Carlos Thompson, Darlan Alberto Tupinambá Araújo Padilha, Geraldo Trombin, Gilvanice Nascimento, Lena Bôa Hattori, Marcos César Uvinha, Pofré, Regina Kalman, Renata Iacovino, Tânia Barroso e Tino Portes, que se solidarizaram, somando seus esforços e sensibilidade à nobre causa do respeito à vida.
Como adendo, vai um poema de minha autoria, intitulado "Varal diferente, não indiferente": Facilmente flui um poema/ Sobre os cupidos e suas setas,/ Mas é tão difícil este tema:/ AIDS - dizem-me os poetas./ Imagino se Castro Alves/ Também à outra causa dissesse 'não',/ E na praça calasse tantos 'salves'/ À liberdade, a Abolição!/ Muitos ainda - talvez eu ou você -/ Continuariam presos a correntes;/ Outros, da covardia à mercê,/ Ostentariam falsos risos nos dentes.../ Graças aos vates de ontem,/ Porque inspiram os que neste varal/ Vêm poetar, a fim de que contem/ Que a indiferença a todos faz mal!".
Escrito por Valquíria às 21h25
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Eu canto, tu cantas...
Recentemente, num jornal, a legenda relativa à imagem de um bem-te-vi dizia “sabiá”...
Sorte o pássaro não ser leitor casual, tampouco assinante. Ofender-se-ía, talvez. Ou não, se fosse tão seguro de si, quanto Cecília Meireles, quando cantou (como cantam os passarinhos): “Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta”.
Sucede que, à leitura, me identifiquei com aquele Pintangus sulphuratus (que, curiosamente, é um dos pássaros mais populares deste país), pois vivo sendo confundida, em função da mudança de uma letra em meu sobrenome, modificação esta, por sua vez, conseqüência da obtenção da cidadania italiana.
Mas, ora bolas... quem sou eu??? Se sempre titubeiam ao escrever Vinicius (de Moraes) e Mario (Quintana) sem acento agudo... E eles sim eram gente inconfundível!
Aliás, por falar em passarinho, jamais poderei, como fez o Quintana, erguer a voz para entoar, sonoramente: “Todos esses que aí estão/ Atravancando meu caminho,/ Eles passarão.../ Eu passarinho!”.
Mas que é irritante manter, por exemplo, no endereço eletrônico o mesmo sobrenome, a fim de evitar maiores transtornos, entre os quais, avisar a toda lista de contatos e, depois, descobrir que isto causou – e causa constantemente – confusão maior ainda, ah, isto é.
O que acontece é que, ao lerem meu nome completo, a maioria das pessoas “corrige” o e-mail e acabo não recebendo correspondências, às vezes, importantes. Ou, ao contrário, ao verem o e-mail, “corrigem” meu sobrenome... O natural não seria me perguntar qual é o correto, ao invés de simplesmente fazer a alteração?
No final das contas, não teve jeito: tive mesmo que criar novo endereço e manter dois, por enquanto: um com “di” e outro com “li”, pelo menos até as coisas se esclarecerem. Tudo bem... para que vamos simplificar a vida, se podemos, a bel prazer, complicá-la, não é mesmo?
Enfim, “quem canta seus males espanta”... E se, há tempos, cantara Cecília aquele seu “Motivo” de que falávamos lá no começo desta ladainha, tenho, hoje, entre estes e demais contratempos, buscado tempo para acompanhar vôos de aves e cantar, apesar das adversidades, mas vai ver, no meu caso, é só “porque, inconscientemente, talvez,/ eu não saiba mesmo fazer/ algo além de ver palavras/ despencando de pares de asas/ para, após, tentar dizê-las,/ de forma que possam compreendê-las,/ ou só porque, quem sabe, sobretudo,/ não haja motivo, ou seja motivo tudo”!
Falando em motivos, em pássaros e poemas... Foi, dia desses, em agradável e profícuo debate para todos os presentes, que o S. Luiz Vicente levantou este seguinte questionamento:
– Por que pombas?...
O que teria motivado Raimundo Correia a escrever em seus “Primeiros Sonhos”, estes versos: “Vai-se a primeira pomba despertada.../ Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas,/ De pombas vão-se dos pombais, apenas/ Raia sangüínea e fresca a madrugada.../ E à tarde, quando a rígida nortada/ Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,/ Ruflando as asas, sacudindo as penas,/ Voltam todas em bando e em revoada.../ Também dos corações onde abotoam,/ Os sonhos, um por um, céleres voam,/ Como voam as pombas dos pombais;/ No Azul da adolescência as asas soltam,/ Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,/ E eles aos corações não voltam mais...”?
– Por que um membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, integrante da histórica Tríade Parnasiana, e mestre na arte de inserir efeitos sinestésicos em seus escritos (expandindo as reflexões para alçá-las muito acima e além da altura do pensamento humano) ficaria a observar pombas?
– Não sei, S. Luiz. Mas, aqui entre nós, assisti na semana passada, uma cena na TV: a mãe dissera ao professor de piano de seu filho que estava deveras preocupada por que o menino não saía do quarto; passava o dia tocando piano, tocando, tocando...
– Não me parece normal... o que você pensa, professor? – Se é normal, não sei... só sei que a senhora acabou de descrever minha infância e adolescência – ele respondeu.
Escrito por Valquíria às 09h29
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Livro aberto
“Não sei bem quando isto começou.../ isto de ser assim tão – que adjetivo?/ Gosto, porém, de pensar que sou quem sou/ não sem razão, apenas sem aparente motivo”.
“Nasci num vinte e sete de setembro/ mês em que o Brasil pare: é primavera!/ Ramos se esticam todos – membro a membro –/ e escalam altos muros braços de hera.”. Desde então, minha vida é apenas um poema. Nele, eu tropeço lá e cá, buscando manter a fé na vida, enquanto enfrento o imprevisto ora surpreendente, ora adverso. Assim, prossigo... versejando sem perder a pureza original da inspiração mobilizadora; medindo e modelando estrofes, porque distingo sempre que, adiante das sílabas, há a alta mão dalguma desmedida intuição disposta e pronta a me levantar.
Às vezes, assaz intuitiva, é verdade, impulsiona-me indecifrável sentido menos ingênuo que animal. Isto muito me assemelha à teimosia do camelo que, embora não calcule os passos, conta e reconta incoscientemente – sem jamais chegar à soma exata – os diminutos grãos de areia sob o sol escaldante. Igualmente, quem, debaixo deste céu, poderá, ou quando, traduzir o eterno turbilhonamento de interrogações e quimeras, presas por invisíveis correntes ao pensamento, como astros na abóbada, séculos afora?
Às vezes, prática, imediatista ou somente sóbria, faço-me repente poema visual – tão abstrato quanto explícito, tão sugestivo, sinestésico, tanto que basta o olhar-me para decifrar-me o humor.
“Minha vida é um livro aberto”, mais que frase feita é, no meu caso, epitáfio satírico. Pois, cá estou, exânime, diuturnamente, à mostra na prateleira do convívio familiar, nas rodas de amigos, nos encontros casuais... e não me lêem!
Se, de vez em quando, eu me inquieto, e me embebedo de olhar estrelas até o delírio que uns e outros denominam alienação, é só porque “Sinto que viver sóbrio dificulta/ a prática diária dos saberes./ Mais vezes e mais forte o erro se avulta,/ quanto menos o julgas mereceres./ É preciso beber da fonte oculta,/ de onde não jorra leite ou mel – prazeres –;/ quem dela sorve o que há em seu peito ausculta/ o que o faz diferente entre outros seres./ Amizade, perdão, amor são travas:/ são palavras que só tornam escravas/ as pessoas que as dizem por dizer./ Mais valho se o meu lábio trouxer mudo,/ se a voz não for espada e, sim, escudo!/ Possa eu, um dia, o que ora escrevo ser”. E o que seria dos poetas, se não ecoassem tristezas e alegrias dos que os antecederam? Por isso, peço a vocês desculpas por este rompante nostálgico, e despeço-me, por hoje, com a licença dos mestres, Vinicius, Bandeira, Camões, Florbela, Bocage, Neruda, Álvares de Azevedo e Castro Alves: “Eu te peço perdão por te amar de repente/ com este intenso amor, tão febril e confuso,/ grave ilusão que sua o corpo e sobe à mente./ O que sinto assim se espalha... e se esvai... difuso!/ Amor – chama, e, depois, fumaça.../ bênção incensada, mui clara,/ névoa que à solidão embaça;/ e cobre a ofensa vil e avara./ Quem diz que Amor é falso ou enganoso/ não experimentou a liberdade/ de viajar sem ter peso – um ser gasoso!,/ fluindo até tornar-se imensidade.../ Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera/ ter sido desde sempre outra pessoa:/ esta que, hoje, madura, a primavera/ da vida com piedade, enfim, coroa./ Meu ser evaporei na lida insana/ de fingir ser feliz estando só;/ se havia, antes, doçura, só a da cana;/ quem, outrora, abraçava-me era a mó./ Antes de amar-te, amor, nada era meu/ antes de tua imagem cega eu era!/ O “antes”, aliás, não houve. Havia o breu/ a plasmar aqui dentro uma quimera./ Se eu morresse amanhã, viria ao menos/ este vapor tocar meu coração/ com seus dedos sutis, leves, amenos.../ inda que eu estivesse num caixão./ E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito/ pulsa, agora, a saudade de outro mar.../ De outras plagas além do vau estreito/ que a fortuna me obriga a, então, singrar./ Enfim, venho pedir-te, o teu perdão./ E este meu pedido é minha oferenda,/ pois não juntei, em vida, ouro nem pão./ Permita Deus que o espólio não te ofenda”.
Escrito por Valquíria às 17h24
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Artigo JJ de 27/10/2008
Rua das Pitangueiras
Nativa do Brasil, a pitangueira é um arbusto de dois a quatro metros de altura, mas que pode atingir, quando adulto, de seis a nove metros – que bela árvore!
Bastante comum em todo o país, espalha-se desde o nordeste até o Rio Grande do Sul, ultrapassando fronteiras para chegar a algumas regiões do Uruguai e da Argentina.
Pernambuco é um dos principais estados produtores de pitanga (que tem seu nome derivado do tupi “pi’tãg”, que quer dizer vermelho-rubro). Análise físico-química revela que, em 100 gramas de polpa de pitanga, encontram-se 38 calorias, 0,3g de proteína, 10mg de cálcio, 20mg de fósforo, 2,3mg de ferro, 0,03mg de vitamina B2 e 14mg de vitamina C.
Tanto o florescimento quanto a frutificação dependem das variações climáticas das diferentes regiões de cultivo.
Tratando-se das regiões Sul e Sudeste do Brasil, essas fases podem ocorrer duas ou mais vezes durante o ano.
De agosto a dezembro, podendo acontecer também de fevereiro a julho, dá-se a floração; a frutificação, de agosto a fevereiro, sendo possível, porém, que ocorra entre abril e julho – um espetáculo aos olhos e ao paladar!
Não obstante o exposto acima, para minha surpresa, só recentemente, à luz deste outubro, na estação dos meus quarenta anos de idade, após cruzar por incontáveis vezes o local, fui, por acaso, descobrir que foi, não da mesma forma por obra do acaso, que assim se denominou, aqui, em minha terra natal, a Rua das Pitangueiras.
A descoberta veio numa conversa informal com o Sr. Waldemar, motorista de táxi, sereno prosador, e amigo de longa data de meu pai, quando eu apontava pela janela o colorido das calçadas a minha filha. Ela apreciava as pitangas vermelhinhas que pendiam dos ramos, decerto tentando ver os sanhaços lá escondidos, cujo canto podíamos distinguir, e que, a despeito do movimento do comércio, degustavam, por sua vez, os frutos. E minha pequena observava, em olhares furtivos rasantes, modificando a expressão, num misto de aceitação dos desígnios da natureza e lamento como que pelo desperdício, talvez, aqueles que estavam deitados ao chão, desprezados pelos pássaros, malditos pelos transeuntes...
Enquanto o trânsito lento não fluía, em paralelo, o meu pensamento trafegava afoito pela mente, indo e vindo, no fluxo da interior indignação: “como eu não me dei conta?”; “como foi que, apesar das inúmeras pitangueiras separadas de quando em quando por intervalos ou por algumas outras espécies, eu jamais associei o nome à rua?”.
Talvez porque, morando a vida toda no bairro logo ao lado, em que todas as ruas têm nomes de países distantes, eu sempre tenha julgado as nomenclaturas tão, como direi, fictícias...
Talvez porque me distraísse tanto àquele tempo, divertindo-me em ver uns e outros passantes buscando alcançar, esticando-se todos, as frutas nos galhos, que não restasse tempo de fazer a dita cuja associação...
Talvez porque eu me ocupasse mais em comer da goiabeira do terreno que ladeava minha própria casa, ou em fazer guerrinha de mamona com meus irmãos e vizinhos...
Enfim, sabe-se lá porquê!
Bom foi, naquela “corrida”, com igual deslumbre com que minha filha desvendava misteriosos esconderijos dos lindos pássaros azuis, verificar que sempre há segredos a serem revelados.
Melhor saber que, embora, hoje, quando já não me interpelem com um “moça”, mas, isto sim, com os tradicionais “dona”, ou “senhora”... existe novidade, ainda, em derredor! Coisas tão simples e discretas que conseguem por anos a fio, driblar até mesmo um incorrigível suposto olhar poético.
Muito melhor foi, dias depois, passando de novo pela referida rua, brincar de memória, perguntando a minha menina: “filha, onde é mesmo que nós estamos?”, ouvir – mais sonoro que o mais belo canto de qualquer pássaro, e mais saboroso que todos os frutos –, na candura daquela voz risonha: “ora, mami, na Rua das Pitangueiras!”.
Já está, pois, nas mãos da minha pequena historiadora mirim dar prosseguimento a esta e demais páginas de nossa Jundiaí. Por sinal, em ótimas mãos, folgo em sabê-lo!!!
Escrito por Valquíria às 16h54
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Artigo JJ de 13/10/2008
Menos belos
A recente apresentação de “A bela e a fera” foi o mote para uma reflexão acerca da insensibilidade que nos propõe o cotidiano...
Levado a palco pelo Coral Estúdio Jovem, numa adaptação da regente e diretora musical Patrícia Gasparin (que esteve ao piano), o clássico – que lotou a Sala Glória Rocha, nas duas sessões – contou com a participação de integrantes do Coral Acalanto, e trouxe, ainda, Cláudia Guedes na flauta transversal e André ao violino.
A arte nunca é isenta de novidade, pois, entrega-se à percepção humana e, esta, sempre está sujeita à rotatividade dos contextos. Portanto, sim, a história é conhecida, mas a inovação vem da leitura-audição que se faz, a cada vez.
O segredo, neste caso, não consiste em, unicamente, nos remetermos àquela pequenina aldeia francesa do século XVIII. Tampouco em nos identificarmos com este ou aquele personagem, embora seja compreensível que nos reconheçamos (ou queiramos nos reconhecer) mais nos traços de um do que nos de outro. Muito mais proveitoso, porém, é distinguir o que vai nas entrelinhas.
Quanto não há da arrogância e da pseudo-auto-afirmação de Gaston, caricaturadas no espetáculo, dentro da maioria de nós? É verdade que menos nos violentaria nos percebermos assemelhados à doce Bela... Isso bem seria possível, se a ferocidade não nos fosse, por tantas vezes, mui bem-vinda, nem, agarrada aos nossos calcanhares, não viesse, dia após dia, criando raízes e plantando sementes, dissimuladamente, à nossa sombra.
Volteando, sem mudar de assunto, tem circulado, virtualmente, outra bela... Esta, uma mensagem, cantada nas vozes de Mercedes Sosa e Beth Carvalho. Nela, se pede a Deus que a dor, a injustiça, a guerra, a mentira e o futuro não nos sejam indiferentes; que a morte não nos encontre um dia, solitários, sem termos feito o que queríamos... Ora, e não temos promovido, nós mesmos, tudo isto, por termos, involuntária, mas não inocentemente, nos tornado menos belos? A mentira, às vezes, não nos é conveniente? O futuro, às vezes, não nos parece improvável?
“A guerra”, diz o texto, “é um monstro grande, pisa forte, toda pobre inocência desta gente”. E não fazemos guerra no trabalho, na escola, na igreja, dentro de casa, dentro de nós mesmos? Quem é o monstro?
Por vir sendo tão difícil enxergar inocência nos outros, talvez, nos seja, igualmente difícil tornar à inocência também.
Se a guerra só gera guerra e a manifestação hostil atrai mais hostilidade, como arrancar de nossos rostos a máscara da Fera que nos persegue? Ou ainda: como reconstruir, interiormente, nossa face Bela?
A automação que permeia as relações humanas carrega em seu bojo a frivolidade que, ao invés de nos aproximar do outro, afasta-nos dele, amealhando algo que se manifesta em palavras e muito pouco em atos.
Transmitimos ao semelhante, muitas vezes, em palavras, algo que quase sempre não acreditamos ou não aplicamos, mas o fazemos na garantia de manter nossa porção Bela. A arrogância ou a necessidade de nos valorizarmos em cima da derrota de outrem é ocultada por tais gestos... cordiais?
O egoísmo, a mentira, a falsidade, o interesse e a conveniência são faces que insistentemente nos transformam em Feras em nossos atos cotidianos, mas só conseguiremos deixar de fazer esta guerra se reconhecermos nosso perfil, admitirmos nossa vulnerabilidade, sepultarmos nosso orgulho, respeitarmos verdadeiramente a diversidade, ouvirmos com o coração e enxergarmos com a alma, praticando o que nos está reservado em nosso lado belo.
Espírito de competitividade é boa política no ramo empresarial, mas daí a aplicá-lo em nossa vida...
Dificilmente atingiremos a perfeita inocência da personagem feminina que protagoniza o espetáculo aqui citado, no entanto, não é da utopia que estamos em busca, e sim de um comportamento mais próximo do humano, onde a seara dos monstros seja apenas uma lenda, uma ficção que só lemos nos livros ou assistimos nos teatros.
Escrito por Valquíria às 17h44
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Esclarecimento:
Os artigos aqui publicados estão na íntegra, sem os eventuais cortes ou alterações feitos pela Redação para a publicação no Jornal.
Escrito por Valquíria às 07h42
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Artigo JJ de 22/09/2008
Fruição
Ah, desta água eu sempre beberei! Esta, a leitura, que me preenche, fazendo-me sentir que vêm desembocar em mim dois rios...
Tão literalmente prazeroso é sorver Hilda Hilst. Embriaga. Vicia... “A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos./ E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima/ Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.”.
Ai, quem dera os vícios todos, à semelhança deste, me arremetessem tão tortuosa, porém, diretamente à sobriedade verdadeira, e não ao mito que se criou em torno dela: “E bebendo, Vida, recusamos o sólido/ O nodoso, a friez-armadilha/ De algum rosto sóbrio”...
Fluentemente, Hilda discorre com placidez pela obscenidade que trafega sorumbática na mente dos pudicos: “Porque há desejo em mim, é tudo cintilância./ Antes, o cotidiano era um pensar alturas/ Buscando Aquele Outro decantado/ Surdo à minha humana ladradura./ Visgo e suor, pois nunca se faziam./ Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo/ Tomas-me o corpo. E que descanso me dás/ Depois das lidas. Sonhei penhascos/ Quando havia o jardim aqui ao lado./ Pensei subidas onde não havia rastros./ Extasiada, fodo contigo/ Ao invés de ganir diante do Nada”...
Mas, ora, que é isto que vejo surgir, correndo paralelamente a nós duas, enquanto compartilhamos?...
É Florbela Espanca, a outra afluente, em cujo seio pálido, eu, jovenzinha, arquejava. Ela vem, lançando-se, como de costume, mansa, deleitosa: “Deixa-me ser a tua amiga, Amor,/ A tua amiga só, já que não queres/ Que pelo teu amor seja a melhor/ A mais triste de todas as mulheres.”...
Assim, sem surpresa, mas com inevitável êxtase, as pressinto, uma a encharcar-se da outra. Fluida, camaleônica, embebida de Florbela, despeja-se Hilda: "Aflição de ser eu e não ser outra./ Aflição de não ser, amor, aquela/ Que muitas filhas te deu, casou donzela/ E à noite se prepara e se adivinha/ Objeto de amor, atenta e bela.”
Sem que eu me dê conta, elas vão, após prepararem o terreno, irrigando-me, despejando-se nisto que sou, neste lodo-visco-opaco: “Tomo café amanhecido/ e junto a ele um trago/ da minha própria saliva,/ tentando digerir quem sou./ Como o pão que o diabo amassou,/ mordo a língua e engulo a raiva”.
Assim, deságuo decantada não sei onde, esfacelada, aos goles engasgando-me comigo... E reescrevo-me à sombra destas mulheres que, feito jarros, derramavam vida dos cálices de si mesmas; vou juntando cacos, à espera de tornar-me íntegra. Talvez, daí, surja “algo que não se pareça nem com poesia,/ Nem com prosa... algo que só tenha/ A deformidade semelhante ao sentimento deformado que há em mim, agora./ Alguma coisa que seja ínfima e abjeta como a face que está por trás desta que mostro,/ Tão aparentemente alegre,/ Tão discretamente sóbria”.
Retomada, banqueteio-me na leitura, a lamber rimas; farta desta minha pseudo-solidez-pragmatismo. Convido Florbela a beber boa safra de Hilda: “o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos/ Azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!/ Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados/ De infância, o plexo aberto, exposto aos lobos”. “Toma-me AGORA, ANTES/ Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes/ Da morte, amor, da minha morte, toma-me/ Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute/ Em cadência minha escura agonia”. “(...) podeis crer que há muito mais vigor/ No lirismo aparente/ No amante Fazedor da palavra/ Do que na mão que esmaga./ A IDÉIA é ambiciosa e santa./ E o amor dos poetas pelos homens/ é mais vasto/ Do que a voracidade que nos move./ E mais forte há de ser/ Quanto mais parco/ Aos vossos olhos possa parecer.”
“Por que não posso/ Pontilhar de inocência e poesia/ Ossos, sangue, carne, o agora/ E tudo isso em nós que se fará disforme?”
Insaciável, destilo a sombra densa que há nas veias destes livros... Repito a liquidez das frases de alguém: “Vou indo, caudalosa/ Recortando de mim/ Inúmeras palavras”. “Contente. Contente do instante/ Da ressurreição, das insônias heróicas”, até enfim ser como ela, vocábulos correntes, dados à sede alheia...
Escrito por Valquíria às 07h40
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Escrito por Valquíria às 15h06
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Artigo JJ de 08/09/08
No meio do mundo
Estou adiando há dias o momento de escrever sobre Macapá. Talvez, porque como a criança que, ao brincar de esconde-esconde, tapa os olhos pensando que isso garanta seu esconderijo, também eu, ingenuamente imagine que colocá-la no papel, possa por magia arrancá-la de dentro de mim.
Tolice ou não, titubeei até esta hora, na qual, finalmente, decidi encarar a monstruosa dúvida.
Mesmo porque, por mais tola que eu fosse, tentando desvencilhar-me de tão memorável capítulo desta vida, como da capital do Amapá eu não me lembraria, se a saudade decorou seu nome (de origem tupi, variação de "Macapaba", que quer dizer lugar de muitas bacabas, fruto de uma palmeira nativa da região), e o chama, volta e meia, aos pés do meu ouvido?
E como não, se, hoje, ao olhar pela janela, vislumbrando a vermelhidão que ateia fogo ao céu da minha amada Jundiaí, muito acima destes prédios, de imediato recordo o fim de tarde no Araxá, quando os raios em sucessão incendiavam apaixonadamente a linha do horizonte preguiçosa, debruçada sobre o Amazonas?
Do quarto dos meus filhos, acompanho o costumeiro movimento da gataria sobre os telhados. Em frente a este quadro, sempre, antes, em minha mente, a imaginação artista pintava os vários felinos como surfistas urbanos, aventurando-se por um mar de telhas onduladas. Agora, inevitável é, a partir desta visão corriqueira, não me remeter à ondulante batida daquele desmesurado rio no paredão de concreto que serpenteia pela extensão da orla. Ao final do dia, aquilo fervilha de gente, enquanto de peixes fervilham, por sua vez, as águas.
Trago, desde a passagem por aquele paraíso, o pulmão descongestionado pelo frescor daquela brisa, o sangue adocicado e denso correndo sob a pele, singrando-me à imitação de algum afluente que desertou para longe...
Meu olhar, de lá pra cá, esverdeou e anda querendo por estas bandas tingir casas, ampliar quintais, fazer-se cinturão e prender a Serra do Japi ao Curiaú para que eu esteja em ambos ao mesmo tempo, e em seus colos gigantes e vitais, unidos, possa repousar da cabeça aos pés, estendida. Ai, Newton, não me venha ditar as leis da Física, tampouco dizer-me que isto é humanamente impossível!, não depois de eu ter pisado, ao mesmo tempo, os dois hemisférios, no Marco Zero do Equador!
Decerto, na Rua Cândido Mendes, abandonei uma parte desta que sou, ou, pelo menos, de quem eu era até ali. Naquela esquina, a fugitiva juntou-se às incontáveis andorinhas em revoada, e eu pensei que partiria, assim, partida ao meio, bem do meio do mundo para o além de mim... Mas, surpreendentemente, ladeando os passarinhos, ela pousou nos fios, após subir e descer, desenhando no céu da tardinha sua face mestiça: resultado de saudade dos que na terra natal deixei para lá estar... e da saudade que, em breve, traria comigo daqueles de quem me apartaria para tornar ao lar.
Presenciei, ainda, na Fortaleza de São José um espetáculo ímpar com cantores da terra, de cujas interpretações repletas de amor às raízes e explícita cumplicidade com a arte jamais minha memória ousará se furtar. Os tambores davam o tom, sob o indescritível céu estrelado. Ademais, Energia e Emoção, ao contrário de fabulosas, cruzavam a todo instante o gramado, personificadas, passando por cada um de nós sem ter que pedir licença, mas, avançando dadivosamente.
Foi na Casa do Artesão que conheci o poeta Herbert Emanuel, autor deste haicai iluminado: “emerge o sol/ do rio/ banho matinal”. E foi por causa, exatamente, de pessoas das quais emerge também luz, como ele, Ivana, Márcio, Paulo Celso, Roberto, Arlinda, Arnaldo, Andréa, Margareth, Joíra, Maria, Marlete, Crisna, Carla, Juliana, Milton, Rodrigues, Getúlio e outros com quem tive o privilégio de compartilhar Macapá, que eu enfrentei e venci o medo de verem se diluir as lembranças, nestas linhas, para dar a quem me leia o testemunho de meu apreço por uma gente e por um lugar que se tornou verdadeira casa, senão para este meu corpo, para a minha ausência que àqueles manterá informados a meu respeito.
Escrito por Valquíria às 14h36
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Artigo JJ de 25/08/08
Tradição e ignorância
O termo “folclore” designa o conjunto de tradições, lendas e crenças de um país, cujas diferenças podem ser percebidas, considerando-se os variados movimentos culturais regionais, ou seja, alimentação, linguagem, artesanato, religiosidade e vestimentas de cada região.
Riquíssimo, o nosso folclore está impregnado de características dos povos que tiveram participação na formação desta nação, sobretudo indígenas, africanos e europeus.
Surgida da junção de dois vocábulos saxônicos antigos: “folk” (povo) e “lore” (conhecimento/saber), a referida palavra significa “conhecimento/sabedoria popular”. Quem a criou foi um pesquisador da cultura européia, o inglês William John Thoms, em 1846.
Conforme o tempo correu, foi suprimido o hífen, nascendo daí uma nova palavra: Folklore.
No Brasil, por meio de decreto federal, desde o ano de 1965, comemora-se o Dia do Folclore; a letra “k” foi substituída pelo “c”, em função da reforma ortográfica de 1934.
Consta da Carta do Folclore Brasileiro, aprovada pelo I Congresso Brasileiro de Folclore em 1951: "constituem fato folclórico a maneira de pensar, sentir e agir de um povo, preservada pela tradição popular ou pela imitação".
Nem por isso a tudo que é popular denomina-se folclórico. O renomado pesquisador do assunto, Luís da Câmara Cascudo, afirmou que um costume pode ser considerado folclórico, se tem origem anônima, isto é, se não se sabe ao certo quem o criou. Deve também ser aceito e praticado por um grande número de indivíduos, bem como resistir ao tempo, além de ser passado de geração em geração, de boca em boca.
Carlos Drummond de Andrade, em 1968, escreveu sobre este folclorista: “Não é propriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sobre costumes, festas, artes do nosso povo. Ele diz tintim-por-tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manisfestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha”.
Adiante, destacou Drummond, o seguinte: “Não é surpresa para mim, que o saiba poeta modernista”, e, de certa forma, lamenta que “o poeta Cascudo permaneceria inédito, sufocado pelo folclorista e historiador”.
Conhecedor da fase poética de Cascudo, haja vista ter daquele recebido o “Sentimental epigrama para Prajadipock, Rei do Sião”, o exímio versejador e cronista mineiro, deu mostras do que afirmava, ao apresentar este “Lundu de Colleen Moore” (lembrando que foram preservadas as regras de acentuação vigentes na época em que foi composto): “Os olhos de Collen Moore/ olhos de jabuticaba/ grandes, redondos, pretinhos.../ mais porém/ são olhos de americano,/ meu-bem./ Eu sempre prefiro os seus,/ meu bem!/ Olhos de ver no cinema,/ só lembra a gente espiando/ e depois é se esquecendo,/ meu-bem./ Eu sempre prefiro os seus,/ meu-bem!/ Ôlho de gente bem branca/ que não mora no Brasil/ fala fala atrapalhada,/ meu-bem,/ é ôlho de terra boa/ mas porém/ eu sempre prefiro os seus./ Meu-bem!...” Estão nítidas, nestas linhas, as preferências nativistas do autor sobre os mitos importados de Hollywood.
A atriz Colleen Moore (a Hester Prynne do filme The Scarlet Letter – 1934), citada no poema acima, à semelhança de Rodolfo Valentino, Greta Garbo, entre outros astros, se tornou uma verdadeira lenda (não folclórica). Em virtude dos interesses da indústria cinematográfica, àquela época, interpretando papéis sempre semelhantes, tais mitos recebiam por isso salários astronômicos, isentos de impostos.
Mas, voltando, de fato, ao que é folclórico... não confundamos tradição popular com ignorância, como por pura ignorância faz muita gente, afinal, o estudo do folclore nos permite radiografar nossa época, a partir do conhecimento que advém de outras épocas.
Dica: não desanime se, ao brincar com seus filhos, dizendo “chuva e sol, casamento de espanhol”, eles, desdenhando do jogo, responderem “que mico!”. Modas vêm e vão. Folclore sobrevive. Quem já dançou quadrilha sabe bem!
Escrito por Valquíria às 17h54
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Artigo JJ de 11/08/08
Todo dia é dia
Onze de agosto é o Dia do Estudante. Mas, é também o Dia do Advogado. A criação destas datas comemorativas se entrelaçam como e desde quando?
"Dom Pedro Primeiro, por graça de Deus e unânime aclamação dos Povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Fazemos saber a todos os nossos súditos que a Assembléia Geral Decretou e nós queremos a lei seguinte: Art. 1º - Crear-se-hão dous cursos de Ciências Jurídicas e Sociais, um na cidade de São Paulo e outro na de Olinda e neles no espaço de cinco anos e em nove Cadeiras, se ensinarão as matérias seguintes [...] Dada no Palácio do Rio de Janeiro aos onze dias do mês de agosto de mil oitocentos e vinte e sete, Sexto da Independência. (a) Imperador Pedro Primeiro".
Foi desde aí, portanto, com a assinatura deste decreto imperial, que quem proclamou a Independência do Brasil anos antes e desejava que o novo país tivesse suas próprias leis (é verdade que, em 1824, a primeira Constituição brasileira foi assinada, entretanto... de que adiantariam as leis, sem alguém que as executasse?), ampliou possibilidades.
Estendeu-se, assim, a outros, além de afortunados que tivessem posses suficientes para viajar e manter-se à distância, a chance de fazer um curso superior.
Sabe-se que, até então, os que pretendessem fazê-lo, precisavam embarcar para a Europa, de onde, somente depois de se formarem, em Portugal ou na França, retornavam ao Brasil.
Por isso, com honrarias, presenças ilustres, e tiros de artilharia, deram-se as inaugurações destas primeiras faculdades, uma em Olinda e outra em São Paulo.
No entanto, apenas em 1927 – cem anos após o surgimento dos cursos de Ciências Jurídicas e Sociais em terras brasileiras – se passou a dedicar, no calendário, o dia onze de agosto a todos os estudantes. A sugestão, acolhida com entusiasmo durante as comemorações, partiu de Celso Gand Ley.
Historicamente, vale lembrar que, mais tarde, seguidos exatamente dez anos, em 11 de agosto de 1937, foi fundada a União Nacional dos Estudantes (UNE), afinal, se o movimento estudantil, naquele período, era já importante, no cenário político nacional, onde participava das lutas abolicionistas, da independência, da república, ele não dispunha ainda de uma entidade que o representasse.
Retornemos aos advogados e, por conseguinte, ao período em que, devido ao respeito tamanho que se devotava à profissão, os comerciantes e donos de restaurantes faziam questão de convidar e também bancar a conta dos acadêmicos seus clientes. Ora, eles, civilizados e efusivos, discursavam, retribuindo a cortesia. E qual foi a nova tradição que nasceu? A própria: o Dia da Pendura.
Passado algum tempo, os convites para comer e beber em troca de discursos foram escasseando. A turma, então, a fim de manter a tradição, passou a se “autoconvidar”. Hoje em dia, com tantos cursos de Direito espalhados pelo país, há decerto muito debate em torno disto.
Advogados têm fundamental papel na sociedade. A Constituição estabelece, em seu artigo 133: “o advogado é indispensável à administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei”.
Estudantes, por sua vez, exercitam sua cidadania: estudar lhes proporciona conhecimento de mundo, bem como da humanidade. O conhecer leva à compreensão de que é possível, cotidianamente, modificar a realidade.
A ninguém serve comemorar, caso a data, seja ela qual for e a que momento histórico remeta, não provoque, em cada indivíduo, reflexão e, por conseguinte, atitude.
Todo dia é dia, enfim, de refletir. Aproveitemos este onze, neste agosto, para pensar na educação, no acesso à mesma, em sua qualidade.
Ah, e embora não se tenha certeza das razões da coincidência das datas, outro profissional, o Garçom, é homenageado neste mesmo dia. Supõe-se que porque, na Pendura, exatamente, ele trabalhe dobrado!
Já a saudosa Olga Mathion, se nos lesse, agora, com certeza, reflexiva e poética, nos lembraria que houve um tempo em que todo dia era dia de índio...
Escrito por Valquíria às 17h53
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